sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Questões Éticas em Êxodo 1

Questões Éticas em Êxodo 1

Carlos Kleber Maia

Diversas questões éticas podem ser abordadas a partir deste capítulo, das quais faremos uma breve análise:

1.    Obediência civil - As parteiras Sifrá e Puá desobedecem a uma ordem direta de Faraó, ao deixar viver os filhos dos hebreus.

Esta questão é muito importante para todos os tempos: Até onde devemos obedecer aos governantes humanos?
É certo que Deus quer que obedeçamos às autoridades, pois Ele mesmo as estabeleceu (Rm 13.1-7), mas quando estas autoridades vão contra a Autoridade Maior, Deus, devemos obedecer a Ele e não aos homens (At 5.29).
Deus é o único que tem autoridade e o único que pode concedê-la. Isto significa que toda autoridade que há no mundo provém de Deus. Deus tem autoridade direta; o homem, só tem autoridade delegada. No entanto, só obedecerá à autoridade que Deus delegou aquele que reconhece e se submete à autoridade do próprio Deus.

No Brasil, algumas leis têm sido estabelecidas de uma maneira arbitrária e que contrariam a Palavra de Deus, tais como: casamento entre pessoas do mesmo sexo, a lei da palmada - que inibe a capacidade paterna de corrigir os filhos, o aborto, etc.

No texto, não somente as parteiras, mas também a filha de Faraó desobedeceu ao rei.

O Senhor Jesus nos deu exemplo de submissão à autoridade do governo (Jo 19.11).

2.    Violência contra os inocentes - Faraó mandou matar os bebês, como forma de controlar o crescimento populacional dos hebreus.

O tirano rei do Egito determina um infanticídio, ordenando a morte dos meninos, para que vivessem apenas as meninas (estas seriam mais fracas e menos resistentes numa rebelião). No entanto, Deus usa apenas as mulheres para garantir o nascimento e a sobrevivência do libertador, Moisés: as parteiras, sua mãe, sua irmã e a filha de Faraó.

Isto mostra um perverso controle de natalidade e nos leva a pensar sobre certas questões:
a)    A Bíblia proíbe o controle de natalidade? Não temos textos claros sobre o assunto. É certo que ter filhos era considerado uma bênção (Sl 127.3-5), pois naquela sociedade que dependia da agricultura e pecuária, quanto mais braços para o trabalho, melhor. No entanto, a Palavra de Deus não diz que devemos ter um número elevado de filhos. É preciso considerar o contexto sócioeconômico deste texto. Nos nossos dias, quando a educação de filhos tornou-se algo muito dispendioso, o casal deve planejar com responsabilidade o crescimento da sua prole, pois devemos cuidar da nossa família (1 Tm 5.8).
b)    A Bíblia reconhece a existência da pessoa humana antes do seu nascimento? Sim. Há um grande debate sobre o momento em que o feto se transforma numa pessoa. Alguns afirmam que é no momento em que o feto pode viver fora do útero; outros, quando o cérebro passa a funcionar; outros, quando o feto sente sensações, dor, etc; outros, quando ele se movimenta ou tem a forma de uma pessoa; outros ainda, quando ele nasce. No entanto, nem a independência, nem o funcionamento do cérebro, nem a ausência de sensações, nem a movimentação ou forma humana definem uma pessoa e a defesa da vida humana a partir da fecundação do óvulo possui tantos argumentos científicos quanto qualquer outra posição.

Deus forma o espírito do homem no ato da fecundação. A diferença entre o óvulo fecundado e um adulto é apenas o tempo e a nutrição! O óvulo fecundado tem um dia, uma semana, três meses, quatro meses e o adulto tem 20 anos, 30 anos, 40 anos ou 50 anos. O embrião é uma pessoa porque no seu desenvolvimento ele não pode se tornar outra coisa a não ser pessoa. Nenhum corpo vivo pode tornar-se pessoa a não ser que já seja pessoa. Ser e humanidade não estão em ordem crescente. Ser e humanidade são inatas; não são adquiridas. Ou seja, nenhum ser humano é mais humano do que outro. O que difere é: o tempo e a nutrição. Por isso que o embrião é um ser humano.

A Bíblia mostra isso: João Batista foi cheio do Espírito Santo enquanto ainda se encontrava no ventre materno (Lc 1.15) e também reconheceu Jesus, já presente no ventre de Maria (Lc 1.44). Deus se relaciona com pessoas ainda não nascidas (Sl 139.13-16; Jó 10.8,11; 31.15; Jr 1.4-5; Gl 1.15, 16; Is 49.1,5). Deus não faz distinção entre vida em potencial e vida real, nem distingue estágios de desenvolvimento do ser. Deus enxerga os que ainda não nasceram e se encontram no ventre materno como pessoas.

É Deus quem dá a vida e somente Ele tem a autoridade de tirá-la (1 Sm 2.6; Zc 12.1; At 17.25,28).

3.    Mentira - As parteiras declaram a Faraó que as hebreias tinham seus filhos sozinhas e Deus as abençoou por sua ação.

Elas podiam estar mentindo sobre isto. Deus aprova a mentira dita com boa intenção? Não. As parteiras egípcias (Ex 1.15-21) disseram ao Faraó que chegavam tarde ao parto das hebreias, o que não é necessariamente mentira (Elas podiam apenas desobedecer atrasando-se deliberadamente).
Raabe mentiu para proteger os espias (Js 2.4-6). Podemos entender sua atitude dentro da situação – vidas em risco, mas nunca dizer que a Bíblia aprova ou defende sua atitude. Neste mesmo tipo de situação Abraão (Gn 12.12-19) e Davi (1 Sm 21.2) também mentiram. Raabe era uma pecadora que foi salva por sua fé e não por sua elevada moral.
A bênção de Deus sobre as parteiras não foi por causa de sua mentira, mas por causa da sua intenção para com o Seu povo. Ele as abençoou apesar dos seus atos.

Entretanto, uma questão importante surge: quando é inevitável cometer um pecado, o que fazer? Se alguém esconde um perseguido em sua casa, e os bandidos que o buscam perguntam: Ele está aí? Se disser que sim, o inocente morrerá. Se disser que não, estará mentindo.
No livro Introdução à Filosofia (Norman L. Geisler e Paul D. Feinberg. Cap. 27), temos uma boa explanação com relação à nossa postura em situações difíceis. O autor coloca algumas possibilidades:
1.    Nunca devemos mentir para salvar uma vida;
2.    Nunca devemos pecar para evitar o pecado;
3.    Devemos confiar na providência de Deus;
4.    Devemos escolher o mal menor.  (A pessoa é simplesmente obrigada a cometer o menor dos dois males, e então confessar seu pecado. Qualquer que seja a decisão, a pessoa comete um mal. O mal menor nunca é justificável);
5.    Devemos escolher o bem maior. (Significa obedecer à lei superior - conforme revelada na Palavra de Deus - sempre que há um conflito inevitável entre dois mandamentos divinos, ou mais).

O mal menor em situações conflitantes nunca é justificável como tal; é simplesmente perdoável. O dever da pessoa é cometer o mal menor, não o maior. Deus não manda que a pessoa peque em situação de conflito, pois Deus não pode pecar nem pode mandar que outros pequem (Tg 1.13).
Podemos concluir dizendo que as Escrituras nunca aprovam os pecados cometidos por aqueles que temem a Deus, mas registra os fatos. As parteiras e Raabe, não foram elogiadas pela mentira, e sim pela fé que exerceram.
Diferente de uma mentira “branca” é não dizer toda verdade, para proteger alguém. Deus ordenou a Samuel que não dissesse o motivo real de sua viagem a Saul, quando foi ungir Davi (1 Sm 16.1). Ele não mentiu, pois foi sacrificar, mas se revelasse o outro motivo maior, correria risco de ser morto.
Deus certamente não aprova a mentira, mas em sua misericórdia poderá entender a fragilidade humana e suas atitudes falhas sob circunstâncias difíceis.

Solo Dio Gloria!


6 comentários:

Luiz Henrique de Almeida Silva disse...

(seu comentário diz)...a Palavra de Deus não diz que devemos ter um número elevado de filhos??????? Onde diz que devemos ter um número reduzido de filhos????

Luiz Henrique de Almeida Silva disse...

Existe alguma prova de que as parteiras estavam mentindo quando disseram que as hebreias davam à luz sem precisar da ajuda das parteiras egípcias? Creio que as hebreias não precisavam e nem queriam, pois tinham suas próprias parteiras e não queriam que seus filhos fossem consagrados a deuses egípcios quando nasciam com as parteiras egípcias.

Kleber Maia disse...

A Palavra de Deus não diz o número de filhos que devemos ter; nem um número elevado, nem reduzido. Entretanto, algum leitor, diante de textos como o do Sl 127.5, pode julgar que todos os homens, se querem ser felizes, devem "encher a aljava de filhos", ou seja, ter o maior número possível deles. Porém, devemos considerar o contexto sócio-econômico do texto, quando uma família numerosa era uma bênção para o trabalho na agropecuária. Nos dias de hoje, ter muitos filhos gera muitas despesas. Uma família que não disponha de muitos recursos deve planejar o números de filhos que deseja ter, para não ficar em dificuldades para cuidar deles, contrariando o exposto por Paulo em 1 Tm 5.8.

Kleber Maia disse...

As parteiras egípcias poderiam estar mentindo, quando afirmaram que as hebreias tinham seus filhos sozinhas, ou não. Alías, seus nomes, Sifrá e Puá, são de origem semita, e não egípcia, o que pode indicar que elas eram, na verdade hebreias. Considerando que estas parteiras eram apenas duas e a população hebreia era de 1,5 a 2 milhões, aproximadamente (pois haviam 600 mil homens no êxodo), elas poderiam ser as chefes do serviço de parto, as responsáveis. Não há indicações de estas parteiras fossem egípcias, pelo contrário, dificilmente alguma mulher livre seria parteira de escravas.

Luiz Henrique de Almeida Silva disse...

Sifrá (em hebraico: שִׁפְרָה šiᵽrâ) foi uma das duas parteiras que ajudaram a evitar o genocídio de crianças hebréiras pelos egípcios, de acordo com Êxodo 1:15-21.

O nome é encontrado em uma lista de escravos no Egito durante o reinado de Sobekhotep III. Esta lista está no Brooklyn 35.1446, um rolo de papiro mantido no Museu do Brooklyn. O nome é escrito šp-ra e significa "ser justo" ou "belo". O nome pode estar relacionado a, ou até ser o mesmo que Safira em aramaico e (até ligeiras adaptações morfológicas) como Safira, o nome da parteira hebreia. O nome da segunda parteira, Puá, é um nome cananeu, que significa "moça" ou "menina". 1

Luiz Henrique de Almeida Silva disse...

As parteiras estavam mentindo para o Faraó? Provavelmente não. Os bebês nasciam antes que as parteiras chegassem, pois Sifrá e Puá haviam pedido a suas assistentes que se atrasassem! DEUS abençoou às duas parteiras-chefes por arriscarem a vida a fim de salvar a nação israelita da extinção. No entanto, honrou-as de um modo estranho: deu-lhes filhos numa época em que isso era tão arriscado! Talvez tenha lhes dado filhas ou, então, protegido seus filhos como fez com Moisés. De qualquer modo, essa bênção de DEUS mostra quão preciosas são as crianças para o Senhor: ele desejava conceder a essas mulheres a mais alta recompensa e, assim, deu filhos a Sifrá e a Puá (Sl 127:3).